Marcas Invisíveis

por Ana Lívia de O.

Não consigo tocar meu próprio corpo sem sentir vontade de arrancar toda a pele que o envolve, esse é o motivo de ter marcas de unhas em boa parte do meu abdômen. Toda vez que eu toco meu pescoço, a vontade de apertá-lo me consome e as lágrimas instintivamente escorrerem pelo meu rosto. Ah, se eu soubesse! Teria esperado por Marco mais um pouco, eu esperaria horas se fosse necessário, com o intuito de não ter que passar pelo que passei há semanas atrás.

Não quero, não quero lembrar de novo! Não quero, não!

Não posso chorar também.

Faz três meses e ainda não consigo esquecer as mãos geladas me arrastando para aquele beco escuro, minha garganta doendo de tanto gritar por socorro sem que ninguém, absolutamente ninguém, me escutasse. Ainda sinto arrepio, exatamente no primeiro local do meu corpo em que fora tocado, lábios tão gelados feito as mãos, ele sabia o que estava fazendo, a marca em meu pescoço é uma recordação disso, de que eu não era a primeira e certamente, não seria a última. Me senti ainda mais suja, ainda mais culpada por ter sido tão apressada ao ponto de não esperar por Marco que disse várias vezes que me deixaria em casa, não queria atrapalhá-lo, poderia muito bem chegar no lugar que vivi por mais de doze anos sozinha.

Mas eu não sabia, não sabia que aquelas mãos feridas pela faca que carregava no bolso, iriam rasgar minha blusa favorita com a lâmina suja de sangue. Tentei gritar de novo, tentei lutar e ele apenas riu de mim, aproximou os lábios da minha orelha e sussurrou:

— Lutando assim, me deixa com mais desejo, sua gostosa — ele distribuiu beijos pela região da minha clavícula, o choro se intensificando, molhando todo meu rosto. Por que eu? — Continua lutando, gosto das que não desistem.

Fiquei ainda mais atordoada, o que eu faria se meu destino havia sido traçado? Estava sendo estrupada e a única coisa que conseguia fazer era chorar. Meu corpo não respondia mais aos estímulos da minha mente, estava apavorada e indefesa nas mãos de um ser asqueroso que achou que tinha o direito de possuir meu corpo sem minha permissão, alguém que esqueceu que eu não sou um pedaço de carne. Não sou um pedaço de carne. Por que ele não entende isso?! O que eu fiz de errado?! 

Eu só queria chegar em casa, tomar um banho e me jogar no sofá com um pacote de salgadinhos em mãos. Só queria fazer o que faço toda noite, seguir minha rotina e acordar no outro dia de manhã para ir ao trabalho. Por quê? Te pergunto: por quê?

A cada peça de roupa minha que ia de encontro ao chão, sentia uma parte minha quebrar e marcas interiores ficando cada vez mais profundas, mais roxas, assim como as que se formavam em meu corpo. Ele ousou beijar a minha boca ao me ver tremendo, ousou me dizer coisas que jamais pensei que escutaria, ele ousou me violar e não apenas fisicamente.

Meus sentimentos oscilavam entre raiva, medo, nojo e pavor. 

O pior de tudo era não saber se continuaria viva,  devido às constantes ameaças que estava sendo obrigada a escutar. Ele me forçou a chamá-lo de amor, a dizer que merecia tudo aquilo… E tantas outras coisas que não consigo, simplesmente não posso colocar para fora.

Eu não aguento, não aguento mais voltar naquele dia, ao mesmo beco escuro quando após terminar de abusar do meu corpo, segurou meu queixo, forçando-me a olhá-lo, mordeu os lábios e disse que havia sido a melhor transa da vida dele.

Você consegue imaginar como me senti? Nem ao menos tive reação ao vê-lo caminhando, as costas viradas para mim, como se nada houvesse acontecido ali. Eu estava nua, meu cabelo agora curto, não ajudaria a diminuir a nudez. Procurei por um pedaço de papelão para cobrir o corpo cheio de hematomas, ele havia feito questão de rasgar em pedaços toda a roupa que antes vestia. Chorei, chorei alto por muito tempo e não parei quando uma moça ao lado do namorado veio me socorrer. 

Meu telefone tocava insistentemente, não tinha forças para atender apesar de saber quem era, estava com vergonha de mim, daquela situação. A moça atendeu, sua voz era doce e eu temia por ela. Porque a voz doce, de anjo, como dizia Marco, não havia me salvado quando implorei para que não fizesse nada comigo. Eu implorei!

— Alô — respondeu.  — Não, sou a Alexa. 

Encolhi-me no momento em que o namorado dela estendeu a jaqueta para mim. Ao ver a cena, a moça correu em minha direção, o afastando de mim. Ela fora gentil em explicar para ele o porquê de ter que ficar longe de mim, o rapaz pareceu culpado e se afastou rapidamente. Mordi o lábio tão forte a fim de evitar as lágrimas que não me surpreendi ao sentir o gosto de sangue na boca, nem aquilo havia sido suficiente para fazer com que esboçasse uma reação diferente da que tinha.

— Oi, eu sou o Jonas. Encontramos a…  Isso, Alexa num beco escuro perto da via principal. Vamos ficar com ela até você chegar, não se preocupe.

Queria gritar para que não o chamassem e por mais que abrisse a boca, nenhum som saia.

— Não precisa falar nada — a moça tocou meu cabelo e eu me afastei, não queria ser tocada, não novamente. — Alexa, terá que cooperar comigo. Não pode ficar coberta por esse papelão velho, vou ajudá-la a vestir esse casaco, tudo bem?

Apontei com a cabeça para o namorado dela, os olhos se enchendo de água novamente. A ruiva se levantou e pouco depois, éramos as únicas naquele lugar imundo. Receosa, tirei o papelão de cima de mim e ela me ajudou a vestir o sobretudo que antes a protegia do frio. O casaco cobria boa parte do meu corpo… E ainda assim, me sentia nua, suja e indefesa.

Agradeci quando ela não se aproximou mais e mantive a mesma posição de quando o papelão era a única coisa que me cobria, o catarro misturado às lágrimas escorria pela região do joelho agora coberta. Não poderia fechar os olhos, não poderia, pois a imagem daquele homem vinha a minha mente, me fazendo querer gritar por socorro. Permaneci imóvel, estática e encarando um ponto fixo até pelo menos Marco chegar acompanhado do Jonas. 

— Aquele monte de espurco — a raiva de Marco era expressada através de seus gestos incompletos. — Eu não acredito que ele teve coragem.

O moreno tentou se aproximar, mas se afastou ao me ver encolher os ombros.

— Ele não tinha o direito, não tinha! — seu estado de negação era evidente. — Se eu encontrasse o canalha…

—  Não é hora, Marco. Se o monstro estivesse aqui, ajudava você a acabar com ele. Mas não está. a Alexa precisa de cuidados. É melhor levá-la para casa. Vou no banco de trás com ela. Tudo bem, Alexa?

Não estava nada bem. É óbvio. No entanto, assenti, era melhor que ela fosse. Ao chegar em casa, a moça me ajudou a chegar até minha cama. Não tinha forças para nada, fiquei sem comer direito por dias, sem sair do quarto e sem falar com ninguém remoendo tudo em minha cabeça. Sofrendo.

~ ⚜ ~

Passou-se um ano desde aquele dia, ainda não me recuperei totalmente do pavor que senti naquela noite, ando receosa pelas ruas e evito ao máximo andar sozinha. Marco me entende e faz questão de estar sempre comigo, ele me contou que iria me pedir em noivado aquela noite, a surpresa estava na minha casa, minha mãe havia lhe dado a chave e o ajudou a ajeitar tudo. Nunca cheguei a ver nada do que tinha sido feito. E isso dói.  Pego-me pensando em como as coisas teriam sido, no que eu não teria que ter passado…

Minha mãe diz para eu não me culpar de nada, minha cabeça não entende isso muito bem, se quiser que eu seja sincera. É difícil, mas estou tentando seguir em frente. Não é como se eu pudesse fazer um desejo a um gênio da lâmpada mágica e tudo o que aconteceu, não se concretizar como verdade. Marco disse que não desistiu do que iria me propor pouco antes de tudo acontecer, me esperaria. E eu fico feliz de saber disso, ao mesmo tempo em que fico apavorada. Não sei quando irei me recuperar.

De vez em quando, me pego chorando, temendo por outras meninas que estão caminhando sozinha pelas ruas escuras dessa cidade. O cara que me estuprou não foi encontrado, mesmo com a descrição que fiz dele. Esse ser está por aí, provavelmente, fazendo o mesmo com outras garotas que não têm culpa em não enxergarem a maldade do mundo. Ninguém deveria ter que andar com medo de ser violentada. E isso dói, dói muito.

Tenho cicatrizes espalhadas pelo corpo que não passaram nem com o tempo, marcas invisíveis aos olhos e que me consomem a alma.

Dou graças por Suzana e Jonas terem me encontrado naquele beco, não tenho ideia do que teria feito se eles não me achassem. Certamente, corria o risco de tirar a minha própria vida. Não teria aguentado sem a ajuda deles, somos amigos desde aquele dia e os considero como parte da minha família. Suzana é assistente social e lida com casos parecidos com o meu quase todos os dias, muitos deles envolvendo crianças. Chorei, porque eu sendo adulta, ainda não consegui superar e existem crianças passando pelas mesmas ou piores, coisas que eu. Sem apoio das pessoas que deveriam amá-las, sem o apoio do resto das pessoas, porque são apontadas como culpadas. 

Embora tudo isso, eu, Alexa, tive o apoio da minha família. E sinto vontade de chorar quando recordo que nem todo mundo que sofre um estupro tem alguém para ajudar a lidar com o trauma, o medo e a dor que isso causa. Gelo ao perceber que muitas meninas ainda irão levantar de becos escuros chorando, machucadas e sem rumo. Muitas tiram a própria vida, não aguentam… Por isso, suplico, ajudem essas pessoas, sejam o apoio que elas precisam, como Suzana e Jonas foram para mim. 

DESABAFANA: Não quero ser uma ex-cristã

Oi amores! O tema dessa vez é sério.

Hoje em dia, a fé cristã é subjugada por causa do testemunho de algumas pessoas. Bom, eu sou cristã e nunca neguei, ao ser questionada sobre qual seria a minha fé.

Sim, existe um “mas” e talvez se choque ao descobrir.

Eu tenho um medo ENORME de professar a minha fé de forma que pareça que sou apenas uma cristã de rede social (pessoa que não vive o que fala) ou não falar dela por receio do que as outras pessoas vão pensar.

Aí você me diz, “Ana, todo Cristão passa por luta, isso é normal”. De fato, todo Cristão tende a enfrentar desafios em sua jornada, nenhum de nós está invicto.

Achei no Pinterest e fala justamente sobre o que estávamos falando acima. Ele sabe de tudo, como pode ver.

No entanto, a verdadeira questão é a seguinte: como você lida com tudo isso?

É muito, muito fácil mesmo, se deixar levar pelo mundo e pelas coisas que ele tem a oferecer, mas de fato, nada conforta mais do que saber que Jesus está sempre esperando que retorne aos braços dEle.

A dor e o vazio que sente só irão desaparecer quando Ele estiver presente em você.

Nós somos como grãozinhos de feijão espalhados por aí, insignificantes diante do Pai, mas Ele, sabe a diferença entre cada um de nós e escolhe nos perdoar porque Ele viu algo em mim, em você, algo que outra pessoa não possui e isso é magnífico. Imagine ter algo tão especial assim?! Algo que até você mesmo desconhece e nem sabe a importância, sendo o que te faz especial para Ele.

Sou muito feliz por saber que alguém (e não qualquer pessoa) me ama desta maneira. E o mais incrível é que Ele ama a todos nós, não é algo restrito a uma pessoa exclusiva, a única coisa que precisamos fazer é nos voltarmos para o nosso Senhor Jesus.

POR QUE “DESABAFANA”?

GALERIS,

(Bom, na verdade, não faço ideia se alguém está lendo ou lerá esse post)

como vocês estão?

Responde nos comentários, a gente se ajuda!

Para darmos início ao blog, resolvi explicar a escolha do nome dele e a frase do cabeçalho: ocupando users com meu @.

Desabafana ou Desabafa Ana surgiu com o intuído de que eu tivesse um lugar para desabafar sem me preocupar com o que os outros fossem pensar, a ideia é ser apenas uma anônima falando sobre o que pensa, elaborando matérias e postando seus textos.

Eu tinha outros dois blogs aqui alternandose e mundivagante, não postava neles há muito tempo e sentia que eles não me representavam mais. Um era bem bagunçado (o primeiro) e o outro o nome não combinava mais comigo, tanto que mudei para “De Ana” antes de o apagar. Até pensei em ficar com ele, mas não queria apagar os posts antigos daqui.

Princesa do deboche em ação, beijos.

Infelizmente, apaguei realmente os posts antigos, mas para trazer um blog mais organizado para mim e para vocês que irão lê-lo

(ainda é surreal que alguém venha a ler o blog, ou seja, ainda estou fazendo tudo por mim, por gostar e por querer ter meu cantinho na rede).

Bom, todo site precisa de um bordão, não é? E já diziam as grandes marcas: os melhores bordões são os loucos. Para vocês não faz sentido e é provável que eu mude (ou não), mas agora vão entender o porquê.

A Ana, do desabafana, vulgo eu, tem problemas com users.

Sabe quando vai todo alegre criar uma conta em algum app ou trocar o seu usuário e de repente:

É, a mensagem que todo mundo gosta de ver quando quer ter um user legal.

Exatamente por este motivo, eu ocupo o user que eu quero em todas as redes sociais que eu conseguir. Já reparou que as redes sociais no menu “fale com Ana” são todas com o mesmo usuário, @desabafana, assim como o blog?

Pois é, acho que vocês não podem me julgar quanto a isso. Facilitei até um pouquinho para acharem as redes sociais do blog e o blog *risos*.

Meus amores, chegamos ao fim do nosso primeiro post.

Ah, tem alguns quadros que aparecerão por aqui vez ou outra:

  • Desabafana
  • Diário de leitura

Mores, chegamos ao fim do nosso primeiro post! Obrigada por terem lido até aqui e não me